ao encontro salgado

01 Julho, 2009

Para voltar à praia, é insuficiente a demanda total de sofreguidão
toda ânsia torna-se no seu máximo, um grão transparente
Hoje, minha alma já contêm mais areia
quilômetros estou das ondas, e já sinto nosso balançar
conjunto. As horas demoram em se tornar salgadas
e meus pêlos imploram, a cada vento, claridade

Pela minha natureza litorânea, o mar é imã e retornada
A beira de cada grão úmido iniciando o líquido, lembra
quenturas habituais desde as primeiras brincadeiras
Calor que me troxe o costume de ventiladores
e lençóis finos à noite para cobertar pernas, manias
Sucumbir aos banhos diários da tiragem do suor

Hei de me morenar, de tomar chuva de sorriso de sol
de percursar estradas em caminhos de irmãos
e por lá, sentir o profundo descontentamento em
lá não mais estar, quando chegar a lágrima de voltar

Com conchas ao redor, cruzo o horizonte em todo maresia
numa só légua de canoa que passa antes por mim e depois
cruza o oceano, em tempo leve, brisa de pavio, trilho aguático
E assim, acampo o eu meu espírito na sombra do despertar

ser contradição

21 Maio, 2009

Se todas as noites fossem recheadas de pessoas, como as das rochas que são cercadas de natureza, eu, continuamente pediria mais e outras vezes silêncio. Aí é quando caminhando, defronta-se com a contradição da nossa espécie, do vasto mundo, do puto diluído fluído que somos por sermos energia de intelecto mal possuída.

dos prantos noturnos

07 Maio, 2009

O meu medo me humaniza
transparece o quanto de horror
por aqui, nas veredas de dentro
ainda faz a tristeza persuadir
o frágil amor-próprio que
tenta, pela força que lhe foi atribuída
sobreviver nas pancadas de
esquecimento da minha machucação

Estou aqui entre desconhecidos
deles para mim, pois poucos
deram um quarto de passo
ao descobrimento das potencialidades
que penteiam o meu ser
e me arrumam para a arte
Enferniza-me o irreconhecimento da voz
A música que me entranha a alma d'água

Tudo calma, pois o futuro é o espirro
chega inesperado, revelador
Agora, eu me sinto tão ingênuo e
criança, que temo a mordaz vida
Sinto o desencaixe e choro ao telefone
ao beliscar da data da mãe
Cadê ela que sempre separou meus
choros e jogo-os fora fedidos?

Aponto o dedo com lágrimas e saudade
Quero ela, a amada a-mãe-te
Preciso da sua segurança que já
sentiu as arguras e por elas continua
vívida. Destrói minhas dores, mãe
Pega-me tu nos seus abraços e cheiros
Consola minha andança em mastros e
Revigora-me os músculos para as porradas

05 Maio, 2009

lamber ferida pra depois ser rei

C's

29 Abril, 2009

Minhas três filhas se chamarão: Camomila, Calêndula e Crisálida. Três luas minguantes.

aguardo sadio

26 Abril, 2009

Eu tenho um coração pedinte
Uma tal de taquicardia vez ou outra
de mundos meus
à parte
Sou o querer ambulante de
beijos e declarações
Olhares textuais
Tato de candura e sofreguidão
A respeito do meu senso
sinto minhas esperanças e agonia
a gritar por entre minhas sensações
Sensorialmente tudo é encontro
Energia, segredos e ousadia
Por mim, a espera poderia ser sutil
O algo a mais num aguardo sadio
viria sempre como nos sonhos
a escutar cantigas no ar
Enquanto com os corações em par
fugíssemos para o nosso único canto
É o namoro eterno
Aquela paquera contínua
Aquele segredo em dó maior
de uma única paixão distribuída em dois.

Sigla

24 Abril, 2009

respira bem, levanta as mãos e já com os braços pendurados, utiliza suas dez bifurcações e tenta tocar violão, todos os dias, agora vão ser a renúncia dos empenhos acabrunhados do ontem. Livre Sensação Descalça, quero a sigla na minha boca.

martela

Entram-me em segredos as minhas dores só por mim sabidas, vontade de nem ao menos achar sobre o desprezo que teimo em sentir. Isto me arrasa tão completamente a ponto de não saber fingir, só fugir. E é quando eu acordo que pioro cada vez mais, caindo e me jogando em bingos de precipícios, enfiando-me em podridão por muito acanhar da rebeldia, da mínima sabedoria. Nem os extremos qualitativos classificarão a dignidade da verdade e da mentira proferidas em prol da fuga que só, e somente eu, sente seu grau, seus ais e seu cais. Tudo o mais, é ânsia de futuro e produção, e a minha atenção agora é rastreada ao perigo dos meus vícios mentais, dos meus tombos mortais e dos meus colapsos semanais.


martelam na mente, cotidianamente, disciplina, livros, pesquisas, salário e documentários, há de desbravar matas em campos etruscos de luta. Que o meu olhar sobre as coisas não me mate como górgonas.

Fio atemático

22 Abril, 2009


Abaixo das árvores, existem chão e folhas desmaiadas
e nas árvores se concentram as sombras da vida
o espelho natural de cada forma
Tentando ser o seu silêncio e a sua altura
hoje, mais do que qualquer parte do ocorrido
escrevo letras tortas em linhas difusas
cotidianamente reformadas e reconstruídas
Não adianta gritar, fugir, bufar, dormir, ir a margem
Um certo inescrupuloso dia, infalivelmente te puxará
pelas roupas da vida e te jogará a praga da escolha
A desnecessidade de cada coisa em cada tempo
Tudo há de ser contemplado e movimentado
num único instante para os múltiplos sentidos
pois, qual a graça de se utilizar um de cada vez?
o objetivo deve ser o uso de toda capacidade, idade
e profundeza das sépalas do sentir, caso de aguardo
Dentre os medos a ser destemido, lá está o mais
perigoso e o mais comestível, o abraço do chão
onde se pisa, onde se semeia, onde nos fecundamos
para o mundo, a grandeza de se auto-sustentar
perante a vida, sendo, o que por todos agoras, existirá
Esse parimento diário é inssossegado
a ferida sempre nascida e depois cicatrizada vêem
pelo fato simples de habitarmos conscientemente
o mundo, as salivas, os suores, as lágrimas, os excrementos
Hoje eu me calo muito mais, hoje me ponho mais em cantos
A quantidade de besteiras que eu nutro é proporcional
a que eu descarto, empurrando-as do mais alto sacrifício
montanhoso que existe, entre os vales do pensar e do agir
E quando esta tragédia melódica e passageira, passa
tudo o é mais leve e o convívio palimpsesto desencadeia poesia
Possivelmente, a incerteza é o que dá a válvula de rumo
pelas trajetórias, e no inverno não há pesca de fantasia
só perpassa a solitude e o próprio acalento, as observações
ínfimas devem aos menos cair passageiramente na mente
e o contato com o âmago, deve ser sem subterfúgios e olheiras
Há de se centrar, de querer colo quente, de criar mares remotos,
sambas efusivos, aderência táctil com outra pele de sabor cheiroso
E, um dia, contornarei a sombra do meu amor numa parede
marcarei seus traços únicos, sua frente, seu perfil
e registrarei nesta fotografia de concreto, seus contornos mais
belos, mais captados pela minha imaginação quando meu
corpo vai de encontro, à noite, à cama. Quem me dera esse gesto
medieval de troca de beijos, cheiros e desenhos, giz de carvão
Moreno, quando houver a sintonização, não demore até chegar
São destas palavras que se vê o veredicto imposto ao artista
a prisão da ilusão, a busca do entardecer palpével, dos mergulhos
sinestésicos, da saudade constante das vivências e da pulsação
Eis o motivo hoje, pelo qual, as minhas tardes são inteiras
de possíveis tarefas e as minhas mãos possuem formigamento
Continuarei sóbrio diante do mundo, esmudecido à competição
pois não haverá, um santo dia, um anjo barroco, um orixá negro
que conceba a superioridade humana, diante de outro igual
Da parte contemporânea que me suga e me inunda
sei que é o meu sexo canalizado em outra esfera
sei, que sempre assim serei afogado
sou, no momento agora, a pirâmide mais alta
o ápice, o alge do meu eu nessas beiradas
Daí, tanta necessidade de esprimir os poros
em busca de expressão, de exclamação
Vontade de improvisar ramos floridos, cachoeiras
ações melodramátricas teatrológas de norma culta
e brandar a todos os pontos cardeais
a tagarelar acima e abaixo das camadas atmosféricas
o senso do ridículo que os humanos teimam em cultuar
Aí estão espalhados os cacos do sistema
Mais do que visível, é inaldível a insensatez
do que aí está, dos desfortunados do conhecimento
da não-noção indagadora e participativa do espaço
de tanta gente abaixar a cabeça e aceitar a desonra
a indignidade da falta de sonhos, da fome, do submundo
a ilegitimidade da propriedade, das classes, do privilégio
Juro não conseguir entender a submissão
a calação, a ausência de inquietação
- sêmen da revolução e da mudança -
o motor da prostituição da mão-de-obra
pra sustentar o peso da sobrevivência
Hora de guardar a indignação e desfoca-la
Não! não... nunca... sempre não para este ato.
Hora de se asustar com o psicohorrorneumático
que varre a vida e elabora a morte
Hora de desobedecer e abarrotar o silêncio
com o grito, a feição de bobalhão subversivirá
Hora de reparar nos detalhes, nas unicidades
Hora de enaltecer as cores invisíveis
de ser bamba entre os padrões
de futucar os leões nas suas instalações
Hora de chorar, de escrachar, de escancarar
Hora de agora, servir à liberdade
plantar abacateiros e torrar farinha
plantar mandiocas e cozer
plantar tomates, cebolas, alfaces e colher
plantar e desfrutar plantas de poder
plantar pés e braços e mãos e cabeças
e suvacos e cabelos e barrigas e pernas
de ávores pelos quitais afora
Hora de cativar e ser amável
de cuspir nos caretas moralistas, apita
Hora de acabar a escrita
Hora de continuar o complexo
a lírica mente ativa
o desconexo